Capítulo 1: A grande descoberta
Dezembro de 1998.
Antes de mais nada, é importante dizer que poucos meses antes deste relato, adquiri um equipamento que mudou minha vida: um colossal modem US Robotics.
Eu já possuia computador e telefone há alguns anos, mas faltava o elo entre as duas tecnologias, e foi apenas em 98 que adquiri esta incrível caixinha mágica, que iria reescrever a maneira na qual passamos horas em frente ao monitor. Kits multimídia eram moda ultrapassada, o frisson do momento era a Internet, e eu estava pronto para desvendá-la.
Um mundo de alternativas se abriu, navegando a incríveis 56k, vendo fotos que demoravam minutos para aparecer, visitando sites de terror com com fontes que sangravam, descobrindo que Bill Gates torturava seus programadores e adorava Satã, ou ainda sentindo compaixão por crianças da Indonésia que trabalhavam por comida para fabricar Nikes como aquele que eu calçava. Tudo era novidade e eu estava maravilhado com a cultura infinita a meu alcance.
Não demorou para que eu descobrisse que a rede mundial poderia me proporcionar muito mais que lendas urbanas, e foi numa chuvosa tarde de sábado, aos 21 anos de idade, que dei meu primeiro passo ao obscuro, porém fantástico, mundo da paquera virtual.
Numa das minhas rotineiras visitas ao falecido site ZAZ (que hoje é o Terra, caso ainda exista alguém que não saiba disso), um link me chamou a atenção: “ALMAS GÊMEAS – Encontre seu par na internet!”, ri com a proposta do site e resolvi ver até onde aquilo iria, cliquei no link e comecei a analisar o funcionamento do serviço.
Tudo muito discreto, a tela inicial era um formulário para preenchimento de dados básicos para a pesquisa da “Alma Gêmea”, fui em frente, estava curioso e não tinha nada melhor pra fazer.
Após preencher alguns campos, como: “Procuro: Mulheres”, “Idade: 20 a 30 anos”, “Estado: SP” e “Cidade: INDIFERENTE”, cliquei em “ENVIAR”, a brincadeira estava melhorando, se tornando uma boa distração, no momento pensei se alguém levava aquilo a sério, que tipo de sujeito precisaria procurar mulher na Internet?.
Eis que, após alguns segundos, veio o resultado, dezenas de garotas, todas com um perfil resumido e uma apresentação básica, algumas até com fotos, comecei a analisar uma por uma.
As que possuiam fotos eram descartadas rapidamente, visto que só havia diabos, ora balofas, ora magricelas, mas invariavelmente saídas do inferno. As que não possuiam fotos eram um convite à imaginação, perfis caprichados, apresentações provocantes, impossível não ficar curioso.
Foi então que um perfil me atraiu, sim, me atraiu, era pra ser uma brincadeira, mas aquele site devia ter alguma espécie de bruxaria em seu código fonte, porque eu estava realmente interessado naquelas garotas e seus anúncios de amor e amizade.
Uma observação importante: eu não consigo lembrar o nome da dona do perfil, por mais que me esforce, eu realmente não me lembro, e prefiro não criar um nome fictício para ela.
“Sou loira, 1,60m, estou à procura de alguém para uma sincera amizade e, quem sabe, relacionamento. Aguardo seu email”
Não achei exagerado e nem pretensioso, era na medida, uma garota modesta que conquistou minha simpatia em apenas duas linhas de texto (aqui volto a reforçar o que disse anteriormente sobre bruxaria, porque é óbvio que as duas linhas não mostravam em momento algum o fato da garota ser modesta e despretensiosa).
Sem demora, cliquei para saber mais sobre a garota, não havia nada de relevante, a não ser seu endereço de email, pensei: “por que não?” e escrevi um email com poucas linhas, abordagem tradicional, como manda o regulamento do xavecador cabaço. Eis o conteúdo:
“Assunto: Olá
Oi, tudo bem? Meu nome é Gabriel, vi teu perfil no ALMAS GÊMEAS e me interessei, gostaria de te conhecer.”
Passei algumas horas, talvez pouco mais de um dia numa incrível ansiedade pela resposta ao email, toda hora abria o Outlook, na esperança de uma resposta e nada, a não ser spams primitivos, informando que eu poderia alongar meu pênis ou que eu poderia ajudar uma fundação pró-crianças famintas em Botswana.
Na noite seguinte, pela quadragésima oitava vez, chequei o email, e desta vez, nenhuma oferta tentadora relacionada à minha genitália ou pedido de auxílio às crianças, apenas um email com o assunto “Re: Olá”.
Um pequeno nervosismo tomou conta de mim e tive receio de abrir o email, pensei “cacete, só falta eu tomar um fora via Almas Gêmeas, é o fundo do poço”, após alguns segundos ensaiando o clique, abri o email. Mais uma vez, eis o conteúdo:
“Olá!
Legal que vc gostou, acho que podemos nos conhecer sim, me liga pra gente conversar melhor, meu telefone é (19)…
BEIJO”
Importante ressaltar três coisas que NÃO passaram pela minha cabeça na hora:
1 – Poderia ser algum cara zuando.
2 – A mina pareceu um pouco fácil demais.
3 – Ela não se mostrou desconfiada, o que levaria à hipótese 1 ou 2.
Eu estava lá, com o telefone dela na tela do computador, agora era uma questão de atitude, me atentei ao código DDD, que definitivamente não era de São Paulo mas ignorei qualquer implicação disso, venci meu nervosismo e timidez e liguei para ela.
DDD 19: Alô (voz de homem, moleque)
Eu: Alô, por favor a … (já disse, esqueci o nome)
DDD 19: Um minuto
Nervosismo aumentando, mas o que eu tinha a perder? Era a hora da cara de pau, eu ia falar com a garota. Alguns segundos de ansiedade extrema, então uma voz suave, de mulher bonita diz:
Voz Suave: Alô
Eu, numa p#@# voz trêmula e ridícula: Alô, é a …?
Voz Suave: Oi, sou eu, quem é?
Eu, num misto de vergonha e constrangimento: É o GABRIEL, eu te mandei um email pelo ALMAS GÊMEAS.
Queria me jogar da janela do quarto nessa hora, não acreditava no fato de estar mantendo um diálogo onde as palavras ALMAS e GÊMEAS estavam inseridas.
Obs: eu morava em um sobrado, provavelmente não morreria com o pulo, mas algumas fraturas estariam garantidas.
Voz Suave: Ah, oi, tudo bem?
Eu, um pouco mais tranquilo: Tudo, e você?
E a conversa seguiu num clima amistoso e aconchegante, a garota era bastante simpática e comunicativa. Em nenhum momento rolou aquele famoso silêncio constrangedor, onde fatalmente, ao tentar abordar um assunto interessante, você acaba falando uma besteira descomunal e põe tudo a perder. Descobri que a cidade de origem do tal DDD 19, no caso, era de SERRA NEGRA, o que me animou, afinal de contas, tinha interesse em conhecer essa cidade.
Nos despedimos, com a promessa de nos falarmos durante a semana, desliguei o telefone, me levantei, fiz uma comemoraçãozinha ridícula, tipo um “YES!” de filme americano e fui escovar os dentes para dormir.
(Continua…Amanhã tem o 2º Capitulo)
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Ótima história, enfim uma série tão boa quanto o curso de pastor online!
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Comment by Eurritimia — 26 de May de 2009 #